terça-feira, 10 de novembro de 2009

Hoje passei pela praia





Hoje passei pela praia, a nossa praia. Estava deserta, mansa, calma, como naquele dia em que, sob a chuva atrevida e a densa névoa de Novembro, decidimos ir, mesmo faltando às aulas, correr na areia.


Querias fugir da escola porque tinhas feito um teste que não te correra bem, apesar de teres jurado a pés juntos que tinhas estudado. Tu, a preguiçosa, a mulher livre, a rapariga contra definições de filosofia e conceitos fixados pela mente humana. Tu, a pessoa mais irreverente e solta que eu conhecera. Tu, de cabelos molhados, de sorriso aberto em felicidade, de pés descalços sobre a areia pesada… Tu, que ainda acreditavas em fábulas, em contos de princesas e dragões que a juventude não arrancara á tua infância; tu, mulher bonita, adolescente rebelde, criança de olhos doces. Tu… que não me enganavas ao dizer que havias estudado.

Eu sabia que não tinhas. Mas quis ir contigo á praia. Fui teu cúmplice nesta inocente mentira de jovens. Só tu me fazias ter estas atitudes loucas que não faziam o meu género.

Eu, que fora educado sempre nos melhores modos, na responsabilidade pessoal perfeita; educado a estudar para as melhores notas, sem uma única falta em tantos anos de escola, fui contigo, que tão poucas presenças tinhas nas aulas em tantos anos de escola. Eu quis ir contigo! Quis ir porque precisava de ver esse teu lado inocente e doce que frequentemente escondias das outras pessoas mas que revelavas perante mim.

Eu considerava-me sortudo porque conhecia esse teu lado suave, essa tua doce loucura e meiga rebeldia.

Enquanto corrias, sem medo de sujar as calças de ganga velhas e desbotadas, eu corria atrás de ti com medo de fazer uma mancha, por mais pequena que fosse, nas minhas calças novas; já bastava ter de inventar uma desculpa para justificar aos meus pais a falta na escola caso eles viessem a saber.

Eu corria era como se o mundo todo corresse comigo para dentro de ti. Nada mais existia: nem a falta injustificada, nem os professores, nem os livros, nem Platão, nem Aristóteles, nem a professora de Filosofia com um aparelho nos dentes e óculos redondos do tamanho do globo terrestre. Naquele momento tu eras o mundo, tu pertencias ao mar, tu eras parte da chuva que caía, eras a areia que eu pisava e eras a neblina que nos escondia.

Hoje passei pela praia, a nossa praia. Espreitei a ver se te via. Desci até lá e quase posso jurar que ouvi o mar ainda a murmurar o teu nome. Talvez tenha tantas saudades tuas como eu tenho. Ajoelhei-me na areia e fiz-te um coração. Foi o único desenho na vida que me saiu bem feito. Só faltava a cor vermelha marcando a paixão, mas esta tu levaste no dia em que partiste. Atirei um beijo ao vento lembrando-me de ti. Chorei. Ergui-me!

São horas de ir estudar Filosofia e os meus pais já me esperam.